Sidney Amaral: um espelho na história - Exposição | Almeida & Dale

Exposições

Sidney Amaral: um espelho na história

Curadoria: Luciara Ribeiro

30.07 — 24.09.2022

Sidney Amaral
Foto: João Liberato

No Brasil de hoje, em meio a tantas reviravoltas políticas, históricas e econômicas, urge falar sobre representatividade, diversidade e revisão histórica. Nos vemos em um momento de transformações, no qual é necessário repensar os caminhos de nossa cultura e nossa identidade, para a construção de um futuro mais justo. Neste contexto, a obra do paulistano Sidney Amaral se faz presente com uma força incomparável propondo, de forma contundente e poética, um olhar para os caminhos, labirintos e desvios da nossa História em busca de nossa própria imagem, mas mais incômoda que seja. Nesta trilha, é impossível evitar encarar a herança da escravidão e das mazelas do povo negro no país. Mas, é importante lembrar, o trabalho do artista não se restringe a estes aspectos: sua obra também trata da poesia, da delicadeza e da transcendência do cotidiano, nos lembrando que o exercício da sensibilidade é uma forma de nos conectar com o mundo.

Nascido na cidade de São Paulo no ano de 1973, Sidney Amaral licenciou-se em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em 1998. Também estudou pintura acadêmica e fotografia no Museu Brasileiro da Escultura (MUBE), onde foi aluno de Ana Maria Tavares. Já participou de mostras na Bienal de Valência (2007), no Museu de Arte Moderna da Bahia, nos 30 anos do Itaú Cultural, além de outras coletivas e individuais no Museu Afro Brasil, MASP e Instituto Tomie Ohtake.

Entre suas primeiras produções, trabalha prioritariamente na criação de esculturas que representam objetos cotidianos forjados em materiais nobres como o mármore, o bronze e a porcelana, deslocados de seus contextos originais sendo ressignificados poeticamente ao oporem banalidade e delicadeza, simplicidade e nobreza, efemeridade e permanência. A série Balões em Suspensão (2009), por exemplo, cria tensões entre a leveza das figuras e o peso do material, entre o delicado polimento das superfícies dos balões e a grosseira corrente de motosserra que os sustenta.

Já o universo temático de seu trabalho pictórico se distancia quase que diametralmente desta leveza poética ao mergulhar na realidade dura e crua, tratando das questões sociais, históricas e políticas que orbitam o lugar do negro na sociedade brasileira. São desenhos, acrílicas e aquarelas de caráter realista nas quais revela extremo domínio técnico na utilização de composições cromáticas, linhas, volume e iluminação.

A auto representação é uma constante no trabalho de Sidney Amaral. Ao tomar-se como tema ou personagem de muitas de suas pinturas e aquarelas, não atesta apenas sua vivência como indivíduo, mas traz à tona sua condição de homem negro, pai, marido e professor de escola pública, tratando assim das privações e angústias de um grupo historicamente marginalizado e alvo de preconceito e opressão. Ao escolher colocar sua própria imagem – a imagem de seu corpo – como o campo no qual se tensionam e se atritam estas questões, o artista descortina o peso que a história – e aquilo que é historicamente construído – exerce sobre os indivíduos no dia-a-dia. Ao falar sobre si mesmo, reflete sobre o lugar social dos negros e afrodescendentes na sociedade brasileira contemporânea.

O diálogo de sua obra com a história do Brasil e as construções da imagem do negro nesse contexto se evidencia, inclusive, na escolha da litografia e da aquarela como suas técnicas principais, assim como pelo realismo pictórico de seus traços. Estas características remetem às crônicas visuais dos registros sobre os escravos feitos por artistas viajantes como Eckhout (1610 – 1665) e Debret (1768 – 1848) no Brasil. Amaral atualiza essa iconografia, ao colocar-se, como um negro, no lugar de observador e observado, agora dando voz ao sujeito oprimido. Sua obra lembra e denuncia como são recentes e ainda terrivelmente opressores os desdobramentos do período escravocrata brasileiro e as feridas que este cruel regime abriu na constituição das identidades dos negros e negras no Brasil.

Sidney Amaral faleceu em maio de 2017, aos 44 anos. A exposição Sidney Amaral: em espelho na História reafirma a atualidade de seu legado, urgindo pelo pensar sobre o Brasil e suas mazelas. Numa cultura na qual, num tempo histórico recente, o homem negro era representado apenas como força de trabalho, submetido e humilhado na condição de escravo e, posteriormente, de maneira folclórica ou pejorativa, uma produção como a Sidney do Amaral, que retrata os negros enquanto indivíduos mobilizados contra essa determinação opressora, é fundamental para a compreensão e a revisão de nossa história.


Serviço

Sidney Amaral: um espelho na história
Curadoria: Luciara Ribeiro
De 30 de julho e 24 de setembro de 2022.

Segunda a sexta-feira das 10h às 18h
Exceto feriados

+55 11 3882 7120
galeria@almeidaedale.com.br

Rua Caconde, 152 – 01425-010
São Paulo – SP