Desfolharei meus olhos neste escuro véu: 100 anos de Antonio Bandeira - Exposição | Almeida & Dale

Exposições

Desfolharei meus olhos neste escuro véu
100 anos de Antonio Bandeira

Curadoria: Galciani Neves

28.05 — 08.07.2022

Antonio Bandeira em seu estúdio
Foto publicada no Correio da Manhã, 1969. Acervo Arquivo Nacional

Que tentava fazer pintura e não pintar quadros, que era uma figura que transitava com a mesma disponibilidade por botequins e embaixadas, que Paris revelou o artista cearense para o mundo, que ele se esquivou dos ismos, que sua obra caminhava entre o abstracionismo lírico, informal, tachista... uma lista de narrativas recorrentes cobre a vida e a obra de Antonio Bandeira. E após tantos anos de reflexões que se pautam nessas atribuições a um artista que não está mais entre nós para contar sua versão da história, parece urgente inventar modos como olhamos e convivemos com Bandeira – o pintor que nasceu “num eclipse, daí ser o mais escuro da família (...), de uma cor mistura de lua e sol” (“Meus filhos, guardai-vos dos ídolos”, Antonio Bandeira, 1951).

A mostra “Desfolharei meus olhos neste escuro véu” apresenta cerca de 50 obras de Bandeira: autorretratos negros, paisagens noturnas, árvores pretas, composições escuras, pinturas e gestos em eclipse. Há também a presença da sua intensa e favorita cor azul nas cidades, nas vilas, na superfície “suja” (suja como a Paris que aparecia em suas telas, segundo ele mesmo), nas composições-relatos feitas a partir de suas memórias do Mondubim, do Morro do Moinho, do Tauape e do Mucuripe (bairros de Fortaleza) ou a partir das texturas de corpo que acumulou da pequena e simpática “mansarda” parisiense, do Rio de Janeiro, da Itália, do ir e vir. São pinturas atravessadas pelo vermelho-fogo da paisagem e das cidades em crepúsculo e pelas árvores – seres multicores na poética de Bandeira.

Os gestos que aqui figuram aconteceram desde 1947 e vão se entrecruzando de maneira não cronológica até 1967. Presentificam parte do que o artista formulava sobre a experiência de ver e sobre o que pensava e praticava como pintura – imagens do possível que insistiam no real. E indagar o que é o real é parte desse enigma poético. Nesse sentido, parece elucidativo pensar que Bandeira dedicava-se a fundir certas categorias: existência e experiência do sensível, imaginário e palpável, visível e invisível, onírico e real. Os trabalhos estão dispostos em núcleos constituídos a partir de um olhar sobre algumas questões pictóricas insistentes em seu percurso de experimentação, relacionadas à composição cromática (como a presença intensa de pinturas escuras, nas quais a cor preta predomina), aos títulos das obras (que nos convidam a acessar as pinturas), aos assuntos (paisagens, cidades, árvores), e que ousa encarar um Bandeira de mãos negras.

Na galeria, esses trabalhos se espacializam ao som de uma voz-vento, uma espécie de sussurro que nos leva devagar. O artista João Simões traduz e recontextualiza o texto de Marguerite Duras, presente no vídeo “As mãos negativas” (1979), no qual a artista narra um ser humano, em tempos longínquos, que do alto de uma falésia fita a imensidão do tempo, do oceano e de sua solidão. Aqui, experimentamos uma aproximação de tempos e de registros de gestos no tempo: a mancha preta da mão carimbada no autorretrato de Bandeira (1967) e a mão espalmada na pedra na cor “do azul da água/ do preto do céu”. Imagine, então, que essas mãos possam tecer afinidades: pela ousadia que as registrou em superfícies – na tela e na pedra – e pelo que vamos seguir sem muito saber sobre suas práticas, seus mistérios: afinal, quem foi aquele homem, de olhos grandes a engolir o mundo, enquanto brincava com as palavras para sentir “de que lado corre o vento”?

Galciani Neves, curadora.


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Desfolharei meus olhos neste escuro véu
100 anos de Antonio Bandeira
Curadoria: Galciani Neves
28.05 a 02.07.2022

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